Sabe quando uma música "fala" com você? É isso.
quarta-feira, 30 de março de 2011
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Dica.
Eu acho incrível a capacidade de agrupamento das moléculas. Uma única solitária reconhece em outra a característica que lhe falta para, então, formar uma substância. Um oxigênio – O – encontra outro oxigênio – O – e juntos eles formam uma “molécula de ar” – O2. Desse ponto em diante ela não se desfaz nem se agrupa com nada mais. Pronto. Os oxigênios estão completos.
Queria que fôssemos como as moléculas, satisfeitas e felizes com o marasmo e a tranqüilidade de ser simples sim, mas por inteiro.
Mas nada é tão fácil e nós não somos tão fáceis assim. Não suportamos a calmaria desse “por inteiro” porque não reconhecemos como é incrível a sensação de completude quando ela finalmente dá o ar da graça. Isso agita a mente, o corpo, o espírito. Não...somos realistas de mais e visionários de menos. Somos todos em preto e branco e não gostamos que cor nenhuma atrapalhe a segurança da fortaleza que criamos para nos proteger do mundo, não gostamos que cor nenhuma respingue na armadura que vestimos para mostrar o quão forte somos. E somos tão fortes, não é? Não! Mentira! Ninguém é tão forte assim. Ninguém é tão auto-suficiente. Podemos ignorar isso com vinte anos, mas acredite, veremos com quarenta. É aí que começa o problema. Quando não percebemos o quanto essa armadura nos impede de viver algo maravilhoso. Ou pior, quando percebemos tarde de mais. Dica: não espere o “tarde de mais”. Nada é perfeito. Pode até ser meio torto e nem tão empolgante assim...mas é maravilhoso. Estamos acostumados ao pessimismo. “Tudo o que é bom dura pouco.” “ Era bom de mais para ser verdade.” “Nada é para sempre.” “Antes tarde do que mais tarde.” O que aconteceu com o “e eles viveram felizes para sempre”? Ninguém mais acredita em eternidade por quê?
Porque aprendemos a viver em um mundo onde tudo é descartável, momentâneo, passageiro e substituível. Vivemos em um mundo onde relação alguma supera a falsa, completamente falsa, sensação de felicidade que temos quando estamos sozinhos, quando nossas escolhas e satisfações são só nossas. Que pena. Assim perdemos tanto...e é só na perda que finalmente percebemos. Dica: não perca. Não espere perder.
Construa, crie, sonhe, imagine. Veja além das nuvens. Não há que ser forte, há que ser flexível. A fortaleza pode ruir a qualquer segundo, a flexibilidade sempre te dá oportunidade de voltar a ser o que era antes. Entenda, ajude, aprenda a dividir e a se doar. Não seja intransigente. Reconheça menos as suas qualidades e ignore mais o defeito de quem está ao seu redor. Dê a devida importância a tudo o que te faz diferença. Dica: muitas vezes um abraço basta. Livre-se de tudo o que te faz mal. Descarte tudo o que te leva para baixo e te impede de crescer, um vício ou alguém. Seja mais carinhoso com quem te quer bem. Felicidade gera felicidade. Gentileza gera gentileza. Amor gera amor. Pessimismo gera pessimismo. Tristeza gera tristeza. Fale mais e faça mais. Não desista. Não desista até que todo o ar tenha fugido de seus pulmões. Nesse momento você poderá deitar sua cabeça no travesseiro com a certeza que tentou. Tudo.
Posso ser otimista e uma romântica incorrigível. Posso me doar muito, até doer. Prefiro aproveitar a delícia sem esperar ou me preocupar com a dor. Depois eu me resolvo com ela. Uma hora a dor adormece...acredite.
É...posso ser otimista de mais...mas se não fosse por mim, a otimista, o pessimista jamais saberia como ele é infeliz.
Queria que fôssemos como as moléculas, satisfeitas e felizes com o marasmo e a tranqüilidade de ser simples sim, mas por inteiro.
Mas nada é tão fácil e nós não somos tão fáceis assim. Não suportamos a calmaria desse “por inteiro” porque não reconhecemos como é incrível a sensação de completude quando ela finalmente dá o ar da graça. Isso agita a mente, o corpo, o espírito. Não...somos realistas de mais e visionários de menos. Somos todos em preto e branco e não gostamos que cor nenhuma atrapalhe a segurança da fortaleza que criamos para nos proteger do mundo, não gostamos que cor nenhuma respingue na armadura que vestimos para mostrar o quão forte somos. E somos tão fortes, não é? Não! Mentira! Ninguém é tão forte assim. Ninguém é tão auto-suficiente. Podemos ignorar isso com vinte anos, mas acredite, veremos com quarenta. É aí que começa o problema. Quando não percebemos o quanto essa armadura nos impede de viver algo maravilhoso. Ou pior, quando percebemos tarde de mais. Dica: não espere o “tarde de mais”. Nada é perfeito. Pode até ser meio torto e nem tão empolgante assim...mas é maravilhoso. Estamos acostumados ao pessimismo. “Tudo o que é bom dura pouco.” “ Era bom de mais para ser verdade.” “Nada é para sempre.” “Antes tarde do que mais tarde.” O que aconteceu com o “e eles viveram felizes para sempre”? Ninguém mais acredita em eternidade por quê?
Porque aprendemos a viver em um mundo onde tudo é descartável, momentâneo, passageiro e substituível. Vivemos em um mundo onde relação alguma supera a falsa, completamente falsa, sensação de felicidade que temos quando estamos sozinhos, quando nossas escolhas e satisfações são só nossas. Que pena. Assim perdemos tanto...e é só na perda que finalmente percebemos. Dica: não perca. Não espere perder.
Construa, crie, sonhe, imagine. Veja além das nuvens. Não há que ser forte, há que ser flexível. A fortaleza pode ruir a qualquer segundo, a flexibilidade sempre te dá oportunidade de voltar a ser o que era antes. Entenda, ajude, aprenda a dividir e a se doar. Não seja intransigente. Reconheça menos as suas qualidades e ignore mais o defeito de quem está ao seu redor. Dê a devida importância a tudo o que te faz diferença. Dica: muitas vezes um abraço basta. Livre-se de tudo o que te faz mal. Descarte tudo o que te leva para baixo e te impede de crescer, um vício ou alguém. Seja mais carinhoso com quem te quer bem. Felicidade gera felicidade. Gentileza gera gentileza. Amor gera amor. Pessimismo gera pessimismo. Tristeza gera tristeza. Fale mais e faça mais. Não desista. Não desista até que todo o ar tenha fugido de seus pulmões. Nesse momento você poderá deitar sua cabeça no travesseiro com a certeza que tentou. Tudo.
Posso ser otimista e uma romântica incorrigível. Posso me doar muito, até doer. Prefiro aproveitar a delícia sem esperar ou me preocupar com a dor. Depois eu me resolvo com ela. Uma hora a dor adormece...acredite.
É...posso ser otimista de mais...mas se não fosse por mim, a otimista, o pessimista jamais saberia como ele é infeliz.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Muito bem, obrigada.
Ainda não sei muito bem como lidar com essa sensação. Acho que não sei nem nomeá-la. Talvez tenha sido o tempo. Ainda não sei.
Nada mais se move em câmera lenta e os dias passam rápido, bem mais do que eu gostaria, mas mesmo assim sem me incomodar. Prefiro a correria à inércia. Minha vida é outra e eu volto ao meu estado original, pouco a pouco. Não lembro ao certo como era ele - o estado - mas consigo sentir. Consigo sentir as moléculas se reagrupando dentro de mim numa sensação conhecida como o cheiro do cobertor que usava quando era criança. Tudo hoje é um pouco mais leve, mais sereno. Tenho meus medos e neuroses, mas, pensando bem, quem não tem?
Amo cada parte torta da minha vida, sem exceção. Das noites que passei em claro chorando de rir ou no chão do quarto, chorando de dor. Amo o caminho que trilhei ou que foi destinado a ser meu. Tenho alguns arrependimentos, mas muito poucos para mencionar.
Quero sorrir, pular, me embebedar com minhas amigas e assistir de camarote seus embaraços alcoólicos e, quem sabe, passar um pouco de vergonha também. Quero contar minha história e me inebria a possibilidade de criar muitas outras, porque agora eu sei que posso. Quero errar, chorar, aprender. Quero poder ser idiota de vez em quando sem me preocupar com o que o mundo vai dizer. Fui criada para ser um exemplo de conduta, passei minha vida inteira tentando fazer jus às expectativas de todos e, honestamente, acho que consegui. Mas minha melhor amiga me ensinou que fugir à regra é bom e que ninguém tem o direito de dizer que não posso, que não devo. Dica: é bom viver um pouco suas vontades e criar suas próprias expectativas quando ao que se deve ser.
Quero coisas simples, noites em claro e duas horas de sono. Quero amar minhas amigas e fazê-las felizes como elas me fazem. Quero ver a felicidade nos olhos dos meus pais quando me tornar uma bacharel. Quero fazer isso por eles porque eles fazem tudo por mim.
Tenho minhas próprias verdades, mas nem por isso deixo dedar créditos às dos outros. Não tenho tudo o que quero, mas tenho tudo que preciso e, acredite, isso já é muito. Hoje eu sou feliz. E se hoje eu sou feliz...
...quem pode me julgar?
Nada mais se move em câmera lenta e os dias passam rápido, bem mais do que eu gostaria, mas mesmo assim sem me incomodar. Prefiro a correria à inércia. Minha vida é outra e eu volto ao meu estado original, pouco a pouco. Não lembro ao certo como era ele - o estado - mas consigo sentir. Consigo sentir as moléculas se reagrupando dentro de mim numa sensação conhecida como o cheiro do cobertor que usava quando era criança. Tudo hoje é um pouco mais leve, mais sereno. Tenho meus medos e neuroses, mas, pensando bem, quem não tem?
Amo cada parte torta da minha vida, sem exceção. Das noites que passei em claro chorando de rir ou no chão do quarto, chorando de dor. Amo o caminho que trilhei ou que foi destinado a ser meu. Tenho alguns arrependimentos, mas muito poucos para mencionar.
Quero sorrir, pular, me embebedar com minhas amigas e assistir de camarote seus embaraços alcoólicos e, quem sabe, passar um pouco de vergonha também. Quero contar minha história e me inebria a possibilidade de criar muitas outras, porque agora eu sei que posso. Quero errar, chorar, aprender. Quero poder ser idiota de vez em quando sem me preocupar com o que o mundo vai dizer. Fui criada para ser um exemplo de conduta, passei minha vida inteira tentando fazer jus às expectativas de todos e, honestamente, acho que consegui. Mas minha melhor amiga me ensinou que fugir à regra é bom e que ninguém tem o direito de dizer que não posso, que não devo. Dica: é bom viver um pouco suas vontades e criar suas próprias expectativas quando ao que se deve ser.
Quero coisas simples, noites em claro e duas horas de sono. Quero amar minhas amigas e fazê-las felizes como elas me fazem. Quero ver a felicidade nos olhos dos meus pais quando me tornar uma bacharel. Quero fazer isso por eles porque eles fazem tudo por mim.
Tenho minhas próprias verdades, mas nem por isso deixo dedar créditos às dos outros. Não tenho tudo o que quero, mas tenho tudo que preciso e, acredite, isso já é muito. Hoje eu sou feliz. E se hoje eu sou feliz...
...quem pode me julgar?
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Smoking Gun.
Eu te amo. Um amor inexplicável. Amo com tudo que posso, tudo que tenho, com todo espaço que ainda me resta...muitas vezes acho que já nasci com esse amor. Mas é muito pessoal, sabe. Metade das coisas que sinto não posso dizer e a outra metade eu mesma desconheço. Talvez você entendesse se fosse possível, mesmo que por um milésimo de segundo, trocar seu peito pelo meu. E por isso mesmo, pela impossibilidade também do avesso, que não te julgo. Não julgo suas razões nem seus porquês, mas fazem quinhentos e trinta e três dias que vivo sem você e por isso espero que me entenda. Entenda que não existe mais espaço dentro do meu peito para dor e não existe mais esperança de que isso não vá acontecer. Hoje não dói, não tortura. Está aqui guardado e acredite, sempre estará...como uma cicatriz já dormente que me faz lembrar que o passado foi real.
O tempo é duro de mais e isso acaba nos atingindo diretamente, já que tudo ao meu redor se modifica e me obriga a acompanhar o movimento das ondas que me arrastam para a corrente que já tem meu nome escrito. Com ele minhas páginas borradas tornaram-se páginas em branco e que, assim sendo, foram preenchidas pouco a pouco pelos passos que dei, pelos suspiros, olhares e planos. Nem tudo é claro, nem tudo é perceptível, ainda tropeço na mesma pedra torta colocada em desalinho à calçada da minha rua, mas continuo. Continuo porque fiquei parada por muito tempo dentro de mim mesma, entre copos vazios e cigarros.
Você já deveria ter imaginado que as coisas, uma hora ou outra, iriam mudar. Acredito que todos têm uma faixa larga delimitando o ponto em que se deve parar. Ali, naquela zona, você tem plena consciência de que um passo a mais será o suficiente para determinar o fim. É claro, nítido. Eu não, porque nada comigo é tão simples. Meu limite é uma linha completamente imperceptível aos olhos. Você não vê, apenas sente e naquele momento, naquele segundo em que seu coração para de bater e tudo se move em câmera lenta você sabe que foi longe demais. Por isso mesmo não me eximo da culpa de ter dado todo esse tempo, muito tempo, dando também margem para mais um erro doloroso que poderia ser esquecido. Poderia mas não foi e nem será, acredite, porque agora não é mais uma questão de mero esquecimento e sim de não querer a dor excruciante de mais uma promessa não cumprida. Você pode jurar, pode furar o dedo e fazer um pacto comigo, mas não pode garantir. Ninguém pode...nem eu mesma.
Tenho um lugar hoje dentro de mim que é só meu e naquele lugar eu sou feliz. Não corro, não tenho pressa, minha respiração é branda e meus passos comedidos. Não há desespero, ele fez parte da minha vida por muito tempo, tempo de mais para se agüentar.
Admito que apenas passo pelos dias, segundo por segundo, para ver se consigo em algum momento de fato vivê-los. Assim... um de cada vez.
O tempo é duro de mais e isso acaba nos atingindo diretamente, já que tudo ao meu redor se modifica e me obriga a acompanhar o movimento das ondas que me arrastam para a corrente que já tem meu nome escrito. Com ele minhas páginas borradas tornaram-se páginas em branco e que, assim sendo, foram preenchidas pouco a pouco pelos passos que dei, pelos suspiros, olhares e planos. Nem tudo é claro, nem tudo é perceptível, ainda tropeço na mesma pedra torta colocada em desalinho à calçada da minha rua, mas continuo. Continuo porque fiquei parada por muito tempo dentro de mim mesma, entre copos vazios e cigarros.
Você já deveria ter imaginado que as coisas, uma hora ou outra, iriam mudar. Acredito que todos têm uma faixa larga delimitando o ponto em que se deve parar. Ali, naquela zona, você tem plena consciência de que um passo a mais será o suficiente para determinar o fim. É claro, nítido. Eu não, porque nada comigo é tão simples. Meu limite é uma linha completamente imperceptível aos olhos. Você não vê, apenas sente e naquele momento, naquele segundo em que seu coração para de bater e tudo se move em câmera lenta você sabe que foi longe demais. Por isso mesmo não me eximo da culpa de ter dado todo esse tempo, muito tempo, dando também margem para mais um erro doloroso que poderia ser esquecido. Poderia mas não foi e nem será, acredite, porque agora não é mais uma questão de mero esquecimento e sim de não querer a dor excruciante de mais uma promessa não cumprida. Você pode jurar, pode furar o dedo e fazer um pacto comigo, mas não pode garantir. Ninguém pode...nem eu mesma.
Tenho um lugar hoje dentro de mim que é só meu e naquele lugar eu sou feliz. Não corro, não tenho pressa, minha respiração é branda e meus passos comedidos. Não há desespero, ele fez parte da minha vida por muito tempo, tempo de mais para se agüentar.
Admito que apenas passo pelos dias, segundo por segundo, para ver se consigo em algum momento de fato vivê-los. Assim... um de cada vez.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
terça-feira, 22 de junho de 2010
Even for me.
“O tempo passa. Mesmo quando isso parece impossível. Mesmo quando cada batida do ponteiro dos segundos dói como o sangue pulsando sob um hematoma. Passa de modo inconstante, com guinadas estranhas e calmarias arrastadas, mas passa. Até para mim”.
L.N.
S.M.
Se eu tivesse que pintar o que estou sentindo agora usaria cores muito brandas, quase em tom pastel.
A maré decidiu baixar no meu mar, trazendo com ela uma calmaria que me inebria e me consome, como uma corrida bem longa. Já não sinto muito minhas pernas e o suor deixou de escorrer em meu rosto não só pelos dias mais frios. Estou mais consciente do meu estômago, não pelas borboletas, mas sim pela falta delas. Não tenho mais medo, não sinto mais as batidas descompassadas do meu coração que corriam desenfreadas ao menor sinal de qualquer coisa.
As pedras portuguesas das calçadas de minha rua continuam no mesmo lugar, irregulares, desbotadas. As crianças do colégio em frente fazem o estardalhaço típico e a música clássica da escola de balé ao lado continua a tocar alto, todos os dias, até as dez e cinqüenta da noite. As folhas pararam de cair e os ventos ficaram mais fortes. O inverno chegou como um suspiro brando que arrepia minhas costas quando acordo. Readquiri o velho hábito de dormir com as cortinas abertas, assim posso sentir o calor do sol fraco que invade minha janela todo manhã e que me reconforta como um cobertor macio. Os dias têm amanhecido menos nublados, ou talvez meus olhos estejam enxergando melhor as cores. Não sinto mais a ausência porque a ausência em si não existe dentro de mim. O vazio deu lugar a um espaço. São coisas completamente diferentes, entende?
Tenho esmalte vermelho em minhas unhas roídas não mais por ansiedade, mas por costume...fazia muito tempo que não usava o Carmim. Os cachos já voltaram aos meus cabelos que hoje atingem minha sexta costela. Mal posso senti-la, pois os doze quilos voltaram a fazer parte da minha silhueta tipicamente voluptuosa. Herança paterna da família, as coxas grossas.
Os saltos estão reinando mais uma vez em meus pés, assim como tudo que era meu.
Respiro fundo a todo segundo, suspiro com um bebê entediado. Respirar para mim é como uma catarse, porque agora sinto – realmente - o ar bater em meus pulmões, como uma pluma quando toca a pele. Não é mais cortante, é fácil...e se respirar é tudo o que preciso, já tenho, em mim,
tudo.
L.N.
S.M.
Se eu tivesse que pintar o que estou sentindo agora usaria cores muito brandas, quase em tom pastel.
A maré decidiu baixar no meu mar, trazendo com ela uma calmaria que me inebria e me consome, como uma corrida bem longa. Já não sinto muito minhas pernas e o suor deixou de escorrer em meu rosto não só pelos dias mais frios. Estou mais consciente do meu estômago, não pelas borboletas, mas sim pela falta delas. Não tenho mais medo, não sinto mais as batidas descompassadas do meu coração que corriam desenfreadas ao menor sinal de qualquer coisa.
As pedras portuguesas das calçadas de minha rua continuam no mesmo lugar, irregulares, desbotadas. As crianças do colégio em frente fazem o estardalhaço típico e a música clássica da escola de balé ao lado continua a tocar alto, todos os dias, até as dez e cinqüenta da noite. As folhas pararam de cair e os ventos ficaram mais fortes. O inverno chegou como um suspiro brando que arrepia minhas costas quando acordo. Readquiri o velho hábito de dormir com as cortinas abertas, assim posso sentir o calor do sol fraco que invade minha janela todo manhã e que me reconforta como um cobertor macio. Os dias têm amanhecido menos nublados, ou talvez meus olhos estejam enxergando melhor as cores. Não sinto mais a ausência porque a ausência em si não existe dentro de mim. O vazio deu lugar a um espaço. São coisas completamente diferentes, entende?
Tenho esmalte vermelho em minhas unhas roídas não mais por ansiedade, mas por costume...fazia muito tempo que não usava o Carmim. Os cachos já voltaram aos meus cabelos que hoje atingem minha sexta costela. Mal posso senti-la, pois os doze quilos voltaram a fazer parte da minha silhueta tipicamente voluptuosa. Herança paterna da família, as coxas grossas.
Os saltos estão reinando mais uma vez em meus pés, assim como tudo que era meu.
Respiro fundo a todo segundo, suspiro com um bebê entediado. Respirar para mim é como uma catarse, porque agora sinto – realmente - o ar bater em meus pulmões, como uma pluma quando toca a pele. Não é mais cortante, é fácil...e se respirar é tudo o que preciso, já tenho, em mim,
tudo.
terça-feira, 30 de março de 2010
Sunshine
Eram 10:18 de uma manhã de terça-feira, o dia estava nublado e ventava um ar forte e gostoso. O arborizado pátio começa a ficar vazio à medida que os alunos voltavam às suas salas, mas ela continuava lá, em seus devaneios habituais.
Repousou os olhos na mão direita e percebeu que o anel que seu pai lhe dera de aniversário, seguindo a tradição da família de presentear as mulheres com jóias ao completarem 21 anos, estava mais uma vez virado. O aro fino, mas imponente de ouro branco brilhava em seu dedo anelar como uma aliança de compromisso. E era assim que ela o usava...sempre. Uma maneira implícita de preencher o vazio do dedo que antes expunha muito mais que um simples anel.
Esticou o braço para apanhar o isqueiro preto e acender o último cigarro daquela manhã. O sol começava a surgir por entre as nuvens e uma nesga tímida de luz bateu no aro refletindo o brilho do ouro e iluminando sua mente. Tirou o anel e tornou a colocá-lo muitas vezes. Com relutância, forçou-o no dedo médio da outra mão. Sentia-se aberta, desprotegida.
Reconsiderara a decisão e, quando estava prestes a devolvê-lo ao antigo lugar, uma mão pousou em seu ombro e uma voz macia lhe falou pelas costas. – Com licença, você pode me emprestar seu isqueiro? – Claro; respondeu, baixando os olhos sem saber de onde vinha a pergunta. Virou e expôs a mão nua que continha apenas a peça preta apertada entre os dedos. Parou por um segundo em um momento de hesitação e se deteve no sorriso da dona da voz. Sorriu de volta. A garota fechou a mão forte na sua e, inclinando o rosto para frente, acendeu-o finalmente.
Com uma mão ainda na outra, recostou-se na cadeira e deu mais um trago no cigarro que sabia não ser mais o último daquela manhã.
Repousou os olhos na mão direita e percebeu que o anel que seu pai lhe dera de aniversário, seguindo a tradição da família de presentear as mulheres com jóias ao completarem 21 anos, estava mais uma vez virado. O aro fino, mas imponente de ouro branco brilhava em seu dedo anelar como uma aliança de compromisso. E era assim que ela o usava...sempre. Uma maneira implícita de preencher o vazio do dedo que antes expunha muito mais que um simples anel.
Esticou o braço para apanhar o isqueiro preto e acender o último cigarro daquela manhã. O sol começava a surgir por entre as nuvens e uma nesga tímida de luz bateu no aro refletindo o brilho do ouro e iluminando sua mente. Tirou o anel e tornou a colocá-lo muitas vezes. Com relutância, forçou-o no dedo médio da outra mão. Sentia-se aberta, desprotegida.
Reconsiderara a decisão e, quando estava prestes a devolvê-lo ao antigo lugar, uma mão pousou em seu ombro e uma voz macia lhe falou pelas costas. – Com licença, você pode me emprestar seu isqueiro? – Claro; respondeu, baixando os olhos sem saber de onde vinha a pergunta. Virou e expôs a mão nua que continha apenas a peça preta apertada entre os dedos. Parou por um segundo em um momento de hesitação e se deteve no sorriso da dona da voz. Sorriu de volta. A garota fechou a mão forte na sua e, inclinando o rosto para frente, acendeu-o finalmente.
Com uma mão ainda na outra, recostou-se na cadeira e deu mais um trago no cigarro que sabia não ser mais o último daquela manhã.
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